Tempos
atrás eu vi uma postagem em um blog que falava sobre pessoas que torciam por um
time no Brasil e outro no exterior. Tentei recuperar o link para compartilhar
aqui, mas infelizmente não tive êxito. Lembro que o autor comparava as equipes
nacionais com a sua esposa/namorada, e as agremiações gringas com a Angelina
Jolie. Segundo o argumento do blogueiro, você poderia admirar a Angelina tal
como admira o clube estrangeiro, mas amar de fato só o time brasileiro mesmo –
na comparação feita, a sua esposa/namorada também. Ainda segundo o autor, a
atratividade do futebol europeu, muito mais midiático e badalado, encheria seus
olhos. Mas nada superaria o que você sente ao ir ao estádio, sentar na
arquibancada e torcer de perto pelo time que acompanha desde pequeno. Ou ainda
o fato de ver os jogadores próximos, de sentir a vibração do caldeirão e todas essas coisas legais
que nós sabemos.
Minha
intenção com esse post é desconstruir esse pensamento. Bom, vamos lá.
É muito
comum ver esse tipo de conversa. Que quem torce para dois times, sejam eles do
seu país ou não, é tido como ‘misto’ e acaba sendo desprestigiado por alguns.
Acontece que o fato de torcer é um fato passional. Ou seja, não envolve razão,
mas paixão. Ou ainda, amor. Esses sentimentos não se manifestam de uma única
maneira. Você ama sua avó, sua mãe, seus irmãos, sua namorada, seu papagaio e
sei lá mais quem. Todos esses sentimentos se manifestam de diferentes formas
por seres diferentes, cada qual com suas particularidades. Não apenas pela
Angelina Jolie. Aí está o primeiro equívoco do nosso amigo blogueiro: torcer é inerente
ao sentimento de amar e, como tal, não pode ser monopolizado.
Pense.
Você já nasce amando sua mãe, é instintivo. Muitas vezes isso acontece com o
futebol. O meio em que estamos inseridos pode muito bem condicionar a nossa
torcida futebolística. Mas, entretanto, porém e todavia, conforme o tempo passa
nós vamos conhecendo o mundo e as pessoas. Aí você conhece e se apaixona por
aquela garota – ou garoto, ou transex, ou ET de Varginha, seja lá qual for a
sua opção. Quando o relacionamento se concretiza, você sabe que gosta daquela
pessoa, você descobriu a história daquela pessoa, se encantou com suas falhas e
qualidades e aprendeu a amar. Que lindo, dá um ótimo roteiro para a próxima
temporada de Malhação.
É
exatamente o que acontece quando você descobre outro time de futebol.
No caso
do Manchester, você lê e vê registros sobre Busby e seus babes, o que ocorreu em Munique, Sir Alex, as viradas épicas, os
fracassos, as glórias, a torcida, as vidas envolvidas com aquilo. E você se
apaixona. Compra aquele pacote esportivo da TV por assinatura, acompanha os
jogos, xinga, se diverte. E grita gol. Já reparou no grito de gol? No jogo
importante principalmente, aquele decisivo, de matar ou morrer. Na hora você
não pensa na Angelina Jolie, na sua namorada, na sua mãe, no seu time
brasileiro ou no raio que o parta. Você apenas grita, pula e comemora. Já está
no seu sangue, você se apaixonou, tarde demais pra voltar atrás. É passional.
Bem como
você ama várias pessoas, pode torcer por várias equipes também. É proibido?
Quem tenta racionalizar o irracionalizável acaba cometendo o erro do nosso
colega: acha que o futebol segue regras. Na boa, nem o juiz segue as regras,
quanto mais a gente.
Contudo,
eu entendo a crítica do nosso camaradinha.
A minha
defesa até aqui foi para quem torce, não para quem ignora completamente a
derrota, não sente nada e vai torcer pelo ‘time verdadeiro’ que vai jogar às
18h no Brasileirão. É verdade que existem os famigerados ‘modinhas’ que
acompanham os jogos e se acham torcedores? É. É verdade que a mídia e o futebol
vistoso influenciam eles a ‘torcer’ por essas equipes, em detrimento muitas
vezes dos clubes brasileiros que jogam um futebol sofrível em diversas
ocasiões? É. É verdade que existem pessoas que nascem torcendo por um só clube
e continuarão assim? É claro que é!
A
torcida/amor se revela de muitas formas e centrar esse sentimento em uma só
instituição é plenamente concebível. O que não pode ser tido como certo é o
fato de que só essa possibilidade seja aceitável. Os questionamentos feitos
pelo cara, contudo, são completamente consideráveis. Mas não se deve
generalizar. Quem escanteia seu ‘primeiro time’ e vai acompanhar apenas atrás
de um desafogo esportivo não merece ser chamado de torcedor. Não é de admirar
que depois que a má fase chegar, procure outro time do coração por uma temporada.
Esses são os tão falados modinhas. Ser modinha é isso aí: ser absolutamente
superficial.
Mas quem
torce é diferente. Mesmo depois daquela jirombada no clássico, onde você jura
que não vai mais acompanhar aquela droga de temporada, permanece firme e forte
no jogo seguinte. É a mesma sensação que se tem ao levar aquela bronca da
mamãe, ficar um tempo sem falar uma palavra com ela em represália, cogitar mil
e um xingamentos mentais para a coitada, e depois se render ao bom e velho
‘Mãe, o almoço ta pronto?’. Ou ainda, depois daquela briga mortal com a
namorada, onde você esbraveja, se pergunta porque não arranjou outra ainda,
lista todos os motivos pelo qual ela nunca mais achará outro cara tão bom
quanto você e tudo o mais. Aí quando os dois sentam e se resolvem, voltam às
declarações. Claro que eu não ia aguentar
ficar mais tempo sem falar com você, meu amor.
Para
fechar, é bom que fique claro que toda forma de torcer deve ser respeitada.
Qualquer um tem a liberdade para torcer da forma que achar mais conveniente e
não pode ser julgado por isso. Entretanto, existem realmente aqueles que apenas
se deixam levar pelo prazer praticado pelo futebol de uma equipe em grande
fase, como os alvos da postagem do rapaz que mencionei anteriormente. Isso é um
crime? Não. Mas eles não podem ser chamados de torcedores agindo assim. Torcer,
repetindo novamente, remete ao amor. E o que os famigerados modinhas praticam é
o completo oposto disso.
Ah, é
verdade. Faltou aparar uma aresta. O que fazer quando surge a maligna pergunta:
‘E quando os dois times se enfrentam, por quem você torce?’.
Vamos
lá.
Imagine
a seguinte situação. Você teve uma recaída com a sua ex. Neste momento, a sua
atual namorada acaba de pegar os dois no maior flagra. Enquanto fica estático,
as duas estão lá brigando. Se estatelando. Puxando os cabelos. Profanando os
mais ásperos xingamentos. Realizando golpes ninjas que nem Bruce Lee no auge da
carreira poderia executar. O confronto épico de duas pessoas que você ama e
quer tudo de bom sempre. Exatamente nesse momento, em algum lugar de sua mente,
passa aquele estalo com a vontade quase insuportável de dizer Calma meninas, não precisam brigar. Tem pra
todo mundo. Felizmente, seu instinto de autopreservação biológica fala mais
alto calando sua boca e evitando um óbito prematuro por assassinato duplamente
qualificado. Voltando a si, inúmeros devaneios depois, percebe que elas ainda
estão lá, no chão agora, levando o embate sangrento até as últimas
conseqüências.
Então,
sejamos francos. Nessas condições, você teria a coragem de dizer por quem torcer?
Por Eduardo Silva
*Texto originalmente publicado no Falando de Premier League, quando eu era colunista de lá. Compartilho aqui pois vejo como um texto que muitos precisem ler, sobretudo pelo que vejo diariamente no Twitter e Facebook.






Hahahaha! Sensacional!
ResponderExcluirValeu, Felipe! ;)
ExcluirPois bem, amigos. Eu sou carioca, portanto cresci envolvido com a mística do Flamengo, meus pais eram sócios torcedores e participavam de torcida organizada do Mengão.
ResponderExcluirEsse é meu primeiro amor e sempre será meu time favorito.
Com 8 anos, meu primeiro contato com o futebol europeu foi o mundial interclubes daquele ano, onde meu arquirrival Vasco enfrentava um tal de Real Madrid, desconhecido por mim na época.
Com a Vitória merengue, eu me afeiçoei pelo time espanhol, comecei a acompanhar cada dia mais, e houve outro fator que me atraia a acompanhar o Real: muitos dos meus ídolos no futebol jogam ou jogaram no Bernabeu, nessa época especificamente Sávio e Roberto Carlos. Aos poucos descobri que sem saber eu já amava o Real Madrid, era de fato um pequeno merengue.
2 anos depois, aos 10 anos, meu tio viajou para fazer intercâmbio na Inglaterra, e lá ele se apaixonou por um time chamado Manchester United. Após 6 meses lá, ele voltou com fotos, revistas falando sobre o United e com 2 camisas do time. Uma delas infantil, com certeza presente pra mim.
E me encontrou muito da magia dos Red devils. Mas eu não ligava muito.
Era muito evidenciado no Brasil o campeonato espanhol, pouco se falava do inglês , só na TV fechada, que eu não tinha acesso na epoca. E meu interesse mais forte era mesmo Flamengo e Real
Lá estava eu firme e forte, flamenguista e madridista.
Daí por volta de 2005/06 se não me engano, começou a transmitir jogos do campeonato inglês na band e eu acompanhei . Gostei de ver aquele time que meu tio chamava de raçudo. E passei a acompanhar tanto o campeonato inglês quanto o espanhol.
E me identificava com meu time "de Nascimento" meu Mengão....também com meu amor europeu Real Madrid....e aderi meu interesse ao United.
Nunca vi problema em torcer pra 2 times europeus. Cada um joga em um país, cada um na sua liga doméstica.
Consigo facilmente conciliar meu amor ao Madrid e minha paixão ao United. Meus 2 clubes.
Conheci o Real Madrid primeiro, tenho mais identificados com o time espanhol, mas também me sinto muito atraído pela mística camisa vermelha de old trafford.
Daí como eu divido as paixões?
Simples: falo sobre o Madrid com meus amigos merengues e falo sobre o United com meus amigos Devils
Quem me acompanhou desde os tempos de Orkut sabe como é.
É assim torço pro meu time caseiro, e acabei torcendo pra dois europeus, cada um tem seus defeitos e qualidades, cada um com sua mística e gosto de todos.
Se me perguntar : qual seu favorito entrr os 3 eu direi Flamengo, por ter crescido na torcida frequentando Maracanã e hoje ser até sócio torcedor.
Espero ter passado com clareza minha experiência
Grande abraço a todos!