Oi, meu nome é Manchester United.
Sou um pomposo senhor de cento e trinta e sete anos. Muito bem vividos,
diga-se. Minha esposa se chama Manchester City e tem esbeltos cento e trinta e
quatro anos. Nós nos vimos pela primeira vez em meados de 1891, por isso temos
muita história pra contar. Muita mesmo
Nosso relacionamento é muito
lindo, apesar das crises que todo casal passa. Afinal, como você bem sabe, até
a dupla perfeita da Lagoa Azul passou por dificuldades. Imagine um mero casal
centenário. Se nesse momento algum homem está lendo isso e se perguntando como
eu consegui superar mais de cem anos de TPM’s, de discussões de relação nas
horas mais impróprias e como me mantive fiel por tanto tempo eu digo que foi
fácil, pois o amor verdadeiro tudo supera.
Bom, na verdade, se manter fiel
foi um problema. Mas chegaremos nessa parte mais na frente.
Muito antes de tratar de
problemas como estes, é preciso falar com a família. Nenhum namoro começa sem o
consentimento do pai, da mãe e por aí vai. E é com propriedade que digo que
meus sogros são dois desgraçados de primeira linha. Noel e Liamnara são músicos respeitados na cidade, criam músicas de
sucesso e muita gente os adora. Como me odeiam do fundo do coração, é fácil
entender suas atitudes. Certa vez durante o namoro demos glórias a todos os
deuses olimpianos, santos cristãos, pagãos e até extraterrestres O motivo?
Finalmente iríamos ficar a sós em casa depois de quase quatro anos de namoro!
Quando eu já exalava testosterona por todos os poros do corpo e estava pronto
para fazer coisas que iriam botar o protagonista de 50 Tons de Cinza no bolso,
eis que um riff estrondoso de guitarra se fez ouvir. Era tão potente que
parecia vir de dentro do quarto. Após entrar para o Guinness como O casal que se vestiu mais rápido depois de
uma tentativa frustrada de sexo em todo o mundo, fomos ver do que se
tratava e era uma bobagem: apenas meus queridos sogros fazendo um show surpresa
no terraço da casa para cerca de duas malditas pessoas que não tem compaixão
pela seca carnal alheia.
Isso sem falar no dia do
casamento quando o Noel vinha dirigindo meu carro e acidentalmente se perdeu no
caminho que já fez mais vezes do que a Terra percorreu na sua órbita ao redor do
Sol. Ou quando, apenas no dia seguinte ao casamento, Liam telefonava às 23:47
querendo de mim conselhos de como lidar com a vida. Agora, por todos os diabos,
me responda que tipo de genro interrompe a transa para bancar o livro de
auto-ajuda para a sogra de meia idade em plena lua de mel. Sim, eu mesmo!
Certo, tenha calma. Nem tudo é
assim. As coisas são fáceis de superar quando você tem uma mulher prestativa ao
seu lado. Muitos anos atrás eu tive sérias complicações financeiras, mas
Manchester City segurou a barra e levantou fundos para me ajudar. Sem essa
ajuda talvez eu não conseguisse me reestruturar e conseguir alavancar minha
vida. Mulher boa é aquela que te faz crescer, que te apóia e está presente
mesmo nos piores momentos da sua existência. Se você possui uma garota assim,
valorize.
Ou não. Faça como eu.
Depois
de melhor estabelecido comecei a freqüentar novos círculos sociais. Um deles
mudou para sempre a minha vida. Foi quando entrei para uma comunidade de
pessoas bem sucedidas conhecida pelo acrônimo U.C.L. – Union of Calamities and
Ladies. Sabe como é, com o tempo o relacionamento vai esfriando, você já não
encontra a mesma felicidade em determinadas situações, vai ficando tudo no modo
automático e etc. Daí você precisa encontrar formas alternativas de diversão. Aliado
a isso, festas de gala, companhias grandiosas aqui e acolá fizeram a relação
esfriar um pouco e nos distanciamos cada vez mais. Principalmente depois de
algumas noitadas: 1968 lá em Londres, 1999 em Barcelona e 2008, em Moscou.
Mas a vida dá voltas, meus
amigos. Todos nós sabemos disso. Durante muito tempo as mulheres foram
sobrepujadas, ficaram sob a sombra dos homens. Ao menos no que diz respeito ao
quesito dinheiro no bolso. Com a independência financeira delas veio também no
pacote um upgrade em autoconfiança, liberdade e motivos para se vingar de
maridos que viviam farreando pela Europa. Esse último é meu caso. Lá pelos
meados de 2008, Manchester City descobre que tem um tio podre de rico e que no
seu testamento deixou tudo para ela. O cara era lá dos Emirados Árabes e tinha
um nome mais estranho do que remédio para diarréia, era um tal de Mansour bin
Zayed Al Nahyan. Tente falar isso em voz alta se você for capaz.
Acontece que depois disso nossa
vida nunca mais foi a mesma. Ela queria de todas as formas ingressar na U.C.L.
Maldita hora em que eu a levei comigo em 1968. Eu disse que aquilo não era
lugar para ela, que não daria certo, que seria uma decepção e tudo o mais. Ela
achou que eu estava fazendo aquilo para afastá-la das coisas que eu desfrutei
anteriormente – e era por isso mesmo, hehe. Revoltada, começou a comprar um
monte de artigos de luxo para mostrar seu novo poder aquisitivo. Constantemente
ela me acusava de pular a cerca nas minhas viagens européias e tudo o mais. Eu
nunca soube como ela descobriu, minha teoria é que ela tinha uns vinte sentidos
extras, um pra cada mulher que peguei nesse meio tempo. Com certeza aquela
brisa ameaçadora soprando na minha nuca quando eu estava no bem bom era na
verdade ela escondida nas sombras me observando e planejando uma vingança lenta
e dolorosa.
Chegou um ponto em que a situação
ficou insustentável. Numa briga muito, muito feia, ela tacou um monte de coisas
em mim. Ficou extremamente agressiva e não sossegava um minuto. Era horrível,
parecia um rolo compressor. Algumas manchas roxas e arranhões depois ela me
perguntou quantas traições eu tinha contra ela. Sinceramente, respondi apenas
uma. Era a única que eu me lembrava no momento. Então, com o peito estufado,
ela bradou para todo o bairro ouvir que tinha tido o prazer de ter metido seis
chifres em mim. Olha só que baixaria. O placar já estava 6x1 para ela.
E
acredite: ficou pior.
Sou desses que acredita que
quando você está ferrado à beira de um abismo sempre vem um infeliz para meter
o pé nas suas costas e completar o serviço. Quando se trata de mulher,
fatalmente o cretino vai ser seu ‘melhor’ amigo. É. Aquele mesmo. Aqueeeeele.
Aquele que dá conselhos, oferece o ombro pra você chorar as mágoas e fala para
esquecer a garota por que no fundo, no fundo, não era pra dar certo. Tudo
mentira por que na verdade ele quer fazer da sua cabeça um busto de veado
silvestre e lustrar os seus chifres nas horas vagas.
No meu caso o desgraçado se
chamava Denis Law.
Desde essa derrota vergonhosa,
fiquei inquieto pensando num modo de devolver na mesma moeda. Jamais poderia
permitir ficar por baixo depois de tal ultrajante derrota. E este dia não
demorou a chegar. Obviamente, depois que você trai e é descoberto, precisa
mudar seu comportamento. Ser mais passivo, deixar que ela fale mais alto às
vezes para evitar a maldita frase ‘Se fosse para a outra você faria,
desgraçado!’ e por aí vai. Depois de anos tratando a minha esposa a pão de ló
esperando ansiosamente o momento da vingança, aconteceu a oportunidade
perfeita.
Finalmente o demorado perdão
veio. E com um lapso afetivo que lembrava nossos mais puros momentos de começo
de namoro, ela veio me pedir um filho. Mas, obviamente, sabia que isto era
impossível já que ela era estéril.
Sem problemas.
Lembrei na mesma hora do tradicional
orfanato dirigido pela família dela. Fomos lá na semana seguinte e minha
graciosa parceira se encantou com um garoto que, curiosamente, parecia muito
comigo. No meio da confusão de pivetes brincando e fazendo a maior bagunça o
garoto parecia ser o mais calmo e educado entre todos ali. Então, ela passou a
mão em seus cabelos e perguntou:
- Como é seu nome, meu querido?
- Ryan Joseph Giggs, senhora.
Meu pequeno e amado Giggs. Fruto
de uma pulada de cerca anos atrás numa das minhas idas a Cardiff. O único que
sabia dessa história era o meu camarada e porteiro do orfanato: Alex. Ele que
mexeu os pauzinhos para que o garoto fosse para lá quando a mãe desistiu de
criá-lo. Então, fez todo o possível para que ele ficasse comigo. No final das
contas, a vitória era minha! Silenciosa, fria e extremamente saborosa.
Mas tudo isso passou.
Hoje vivemos numa diplomacia
agradável e com Giggs sendo figura constante nos bancos de reserva. Digo,
bancos de sofá. A vida ficou mais equilibrada e eu tive que aceitar que ela
também fazia parte da U.C.L. Apesar de que o pessoal lá não a trata muito bem,
talvez por recomendação minha. A gente ainda briga de vez em quando, sabe. Mas
isso é normal. Após tantas idas e vindas o importante é viver bem e juntos. O
resto você vai construindo com o passar das primaveras.
Afinal de contas, o que seria de
um homem sem a sua esposa não é mesmo?
Por Eduardo Silva






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