Destaques

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

E se o Manchester City fosse a sua esposa?



Oi, meu nome é Manchester United. Sou um pomposo senhor de cento e trinta e sete anos. Muito bem vividos, diga-se. Minha esposa se chama Manchester City e tem esbeltos cento e trinta e quatro anos. Nós nos vimos pela primeira vez em meados de 1891, por isso temos muita história pra contar. Muita mesmo

Nosso relacionamento é muito lindo, apesar das crises que todo casal passa. Afinal, como você bem sabe, até a dupla perfeita da Lagoa Azul passou por dificuldades. Imagine um mero casal centenário. Se nesse momento algum homem está lendo isso e se perguntando como eu consegui superar mais de cem anos de TPM’s, de discussões de relação nas horas mais impróprias e como me mantive fiel por tanto tempo eu digo que foi fácil, pois o amor verdadeiro tudo supera.

Bom, na verdade, se manter fiel foi um problema. Mas chegaremos nessa parte mais na frente.

Muito antes de tratar de problemas como estes, é preciso falar com a família. Nenhum namoro começa sem o consentimento do pai, da mãe e por aí vai. E é com propriedade que digo que meus sogros são dois desgraçados de primeira linha. Noel e Liamnara são músicos respeitados na cidade, criam músicas de sucesso e muita gente os adora. Como me odeiam do fundo do coração, é fácil entender suas atitudes. Certa vez durante o namoro demos glórias a todos os deuses olimpianos, santos cristãos, pagãos e até extraterrestres O motivo? Finalmente iríamos ficar a sós em casa depois de quase quatro anos de namoro! Quando eu já exalava testosterona por todos os poros do corpo e estava pronto para fazer coisas que iriam botar o protagonista de 50 Tons de Cinza no bolso, eis que um riff estrondoso de guitarra se fez ouvir. Era tão potente que parecia vir de dentro do quarto. Após entrar para o Guinness como O casal que se vestiu mais rápido depois de uma tentativa frustrada de sexo em todo o mundo, fomos ver do que se tratava e era uma bobagem: apenas meus queridos sogros fazendo um show surpresa no terraço da casa para cerca de duas malditas pessoas que não tem compaixão pela seca carnal alheia.

Isso sem falar no dia do casamento quando o Noel vinha dirigindo meu carro e acidentalmente se perdeu no caminho que já fez mais vezes do que a Terra percorreu na sua órbita ao redor do Sol. Ou quando, apenas no dia seguinte ao casamento, Liam telefonava às 23:47 querendo de mim conselhos de como lidar com a vida. Agora, por todos os diabos, me responda que tipo de genro interrompe a transa para bancar o livro de auto-ajuda para a sogra de meia idade em plena lua de mel. Sim, eu mesmo!

Certo, tenha calma. Nem tudo é assim. As coisas são fáceis de superar quando você tem uma mulher prestativa ao seu lado. Muitos anos atrás eu tive sérias complicações financeiras, mas Manchester City segurou a barra e levantou fundos para me ajudar. Sem essa ajuda talvez eu não conseguisse me reestruturar e conseguir alavancar minha vida. Mulher boa é aquela que te faz crescer, que te apóia e está presente mesmo nos piores momentos da sua existência. Se você possui uma garota assim, valorize.

Ou não. Faça como eu.

Depois de melhor estabelecido comecei a freqüentar novos círculos sociais. Um deles mudou para sempre a minha vida. Foi quando entrei para uma comunidade de pessoas bem sucedidas conhecida pelo acrônimo U.C.L. – Union of Calamities and Ladies. Sabe como é, com o tempo o relacionamento vai esfriando, você já não encontra a mesma felicidade em determinadas situações, vai ficando tudo no modo automático e etc. Daí você precisa encontrar formas alternativas de diversão. Aliado a isso, festas de gala, companhias grandiosas aqui e acolá fizeram a relação esfriar um pouco e nos distanciamos cada vez mais. Principalmente depois de algumas noitadas: 1968 lá em Londres, 1999 em Barcelona e 2008, em Moscou. 

Mas a vida dá voltas, meus amigos. Todos nós sabemos disso. Durante muito tempo as mulheres foram sobrepujadas, ficaram sob a sombra dos homens. Ao menos no que diz respeito ao quesito dinheiro no bolso. Com a independência financeira delas veio também no pacote um upgrade em autoconfiança, liberdade e motivos para se vingar de maridos que viviam farreando pela Europa. Esse último é meu caso. Lá pelos meados de 2008, Manchester City descobre que tem um tio podre de rico e que no seu testamento deixou tudo para ela. O cara era lá dos Emirados Árabes e tinha um nome mais estranho do que remédio para diarréia, era um tal de Mansour bin Zayed Al Nahyan. Tente falar isso em voz alta se você for capaz.

Acontece que depois disso nossa vida nunca mais foi a mesma. Ela queria de todas as formas ingressar na U.C.L. Maldita hora em que eu a levei comigo em 1968. Eu disse que aquilo não era lugar para ela, que não daria certo, que seria uma decepção e tudo o mais. Ela achou que eu estava fazendo aquilo para afastá-la das coisas que eu desfrutei anteriormente – e era por isso mesmo, hehe. Revoltada, começou a comprar um monte de artigos de luxo para mostrar seu novo poder aquisitivo. Constantemente ela me acusava de pular a cerca nas minhas viagens européias e tudo o mais. Eu nunca soube como ela descobriu, minha teoria é que ela tinha uns vinte sentidos extras, um pra cada mulher que peguei nesse meio tempo. Com certeza aquela brisa ameaçadora soprando na minha nuca quando eu estava no bem bom era na verdade ela escondida nas sombras me observando e planejando uma vingança lenta e dolorosa.

Chegou um ponto em que a situação ficou insustentável. Numa briga muito, muito feia, ela tacou um monte de coisas em mim. Ficou extremamente agressiva e não sossegava um minuto. Era horrível, parecia um rolo compressor. Algumas manchas roxas e arranhões depois ela me perguntou quantas traições eu tinha contra ela. Sinceramente, respondi apenas uma. Era a única que eu me lembrava no momento. Então, com o peito estufado, ela bradou para todo o bairro ouvir que tinha tido o prazer de ter metido seis chifres em mim. Olha só que baixaria. O placar já estava 6x1 para ela.

E acredite: ficou pior.                                    

Sou desses que acredita que quando você está ferrado à beira de um abismo sempre vem um infeliz para meter o pé nas suas costas e completar o serviço. Quando se trata de mulher, fatalmente o cretino vai ser seu ‘melhor’ amigo. É. Aquele mesmo. Aqueeeeele. Aquele que dá conselhos, oferece o ombro pra você chorar as mágoas e fala para esquecer a garota por que no fundo, no fundo, não era pra dar certo. Tudo mentira por que na verdade ele quer fazer da sua cabeça um busto de veado silvestre e lustrar os seus chifres nas horas vagas.

No meu caso o desgraçado se chamava Denis Law.

Desde essa derrota vergonhosa, fiquei inquieto pensando num modo de devolver na mesma moeda. Jamais poderia permitir ficar por baixo depois de tal ultrajante derrota. E este dia não demorou a chegar. Obviamente, depois que você trai e é descoberto, precisa mudar seu comportamento. Ser mais passivo, deixar que ela fale mais alto às vezes para evitar a maldita frase ‘Se fosse para a outra você faria, desgraçado!’ e por aí vai. Depois de anos tratando a minha esposa a pão de ló esperando ansiosamente o momento da vingança, aconteceu a oportunidade perfeita.

Finalmente o demorado perdão veio. E com um lapso afetivo que lembrava nossos mais puros momentos de começo de namoro, ela veio me pedir um filho. Mas, obviamente, sabia que isto era impossível já que ela era estéril.

Sem problemas.

Lembrei na mesma hora do tradicional orfanato dirigido pela família dela. Fomos lá na semana seguinte e minha graciosa parceira se encantou com um garoto que, curiosamente, parecia muito comigo. No meio da confusão de pivetes brincando e fazendo a maior bagunça o garoto parecia ser o mais calmo e educado entre todos ali. Então, ela passou a mão em seus cabelos e perguntou:

- Como é seu nome, meu querido?
- Ryan Joseph Giggs, senhora.

Meu pequeno e amado Giggs. Fruto de uma pulada de cerca anos atrás numa das minhas idas a Cardiff. O único que sabia dessa história era o meu camarada e porteiro do orfanato: Alex. Ele que mexeu os pauzinhos para que o garoto fosse para lá quando a mãe desistiu de criá-lo. Então, fez todo o possível para que ele ficasse comigo. No final das contas, a vitória era minha! Silenciosa, fria e extremamente saborosa.

Mas tudo isso passou.

Hoje vivemos numa diplomacia agradável e com Giggs sendo figura constante nos bancos de reserva. Digo, bancos de sofá. A vida ficou mais equilibrada e eu tive que aceitar que ela também fazia parte da U.C.L. Apesar de que o pessoal lá não a trata muito bem, talvez por recomendação minha. A gente ainda briga de vez em quando, sabe. Mas isso é normal. Após tantas idas e vindas o importante é viver bem e juntos. O resto você vai construindo com o passar das primaveras.

Afinal de contas, o que seria de um homem sem a sua esposa não é mesmo?

Por Eduardo Silva
Página Seguinte » « Página Anterior Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário